A CASA DO MEU AVÔ


PARTE 1

Lembro-me quando criança de gostar de freqüentar a casa de meu avô, localizada no município de Santos Dumont, interior de Minas Gerais, uma cidade sem graça, mas que tinha a casa do meu avô. Soube mais tarde por minha mãe que aquela casa foi o sonho dele em seu segundo casamento, se endividou para construí-la e ainda assim não a viu terminada em vida. Meu avô gostava de viver bem, era advogado e professor de português, convivi com ele já na fase dos seus 70 anos, ele lia jornal aos domingos, tinha um escritório em casa com os clássicos da literatura e livros jurídicos, passava o domingo nele.... Apreciava também a boa culinária, tinha uma cozinheira, Dinha, que era uma preciosidade, devia se cansar de ouvir tantos elogios sobre seu dom culinário e sua simpatia (sempre com um largo sorriso no rosto), a casa tinha uma copa/ cozinha grande, com piso cerâmico verde, lugar onde a família almoçava aos domingos. Dessa copa, por uma larga porta de vidro, comíamos vendo o quintal e por outra porta de vidro podíamos avistar também a sala de TV, onde em uma mesinha de centro os netos menores (questão de hierarquia) comiam quando a mesa da copa lotava, criava-se um ambiente agradável com todos se vendo, vendo o jardim e saboreando a deliciosa comida da Dinha.

Nas datas especiais a sala de Jantar era utilizada, um pouco pequena, mas um micro-universo encantador, mesmo criança na época percebia e gostava dos vitrais das duas janelas estreitas e compridas em uma parede lateral, esta sala tinha uma cristaleira com louças, vidros e pratarias fantásticas, nada luxuoso, mas de extremo bom gosto. A sala era conjugada por uma diferença de nível com a sala de visitas, onde se tomava também café e licor após o almoço, esta sala compunha a fachada da casa com suas portas de ferro e vidro, permitindo que avistássemos ao longe a paisagem de mar de morros de Santos Dumont (hoje interrompida pela construção de um alto edifício ) e também que se visse a tranquila rua em frente, por onde passavam cortejos fúnebres. Esta sala de visitas tinha um grosso tapete felpudo cor laranja onde eu imaginava noites eróticas com mulheres espetaculares, tinha também um jogo de sofá e poltronas confortabilíssimo e de desenho tão simples que cheguei a copiar as medidas já como estudante de arquitetura. Para arrematar, a sala de visitas tinha ainda um detalhe incomum para casas de cidades do interior; a laje de concreto inclinada acompanhando o desenho do telhado que suportava.

Meu avô sempre foi de certa forma rigoroso, não era de muita brincadeira com os netos e não tinha paciência com brincadeiras de “correria”, quando eu dormia na casa era do jeito dele: Hora para banho, lanche, jantar, um pouco de TV e cama! A casa ganhava outra dimensão à noite; iluminação indireta dos abajures, a batida do relógio de pêndulo, os belos quadros figurativos de paisagens, o clima mais calmo de poucas pessoas, tudo em seu devido lugar. Ficávamos na sala assistindo o jornal e um clima de ordem e paz reinava.

Lembro-me também que em certas ocasiões, quando íamos visitar Santos Dumont, havia disputa pela “vaga” de passar a noite na casa do meu avô, pois o “excesso de contingente” levava-me às vezes para casa de minha tia, uma pessoa maravilhosa, onde não havia hora para dormir, mas também não tinha aquele clima e arquitetura da casa do meu avô.

Revendo o texto, vejo que esqueci de falar sobre a banheira no banheiro do segundo pavimento (que apesar da vontade, raríssimas vezes podia usar), do abacateiro, do galinheiro e da pequena piscina de patos no quintal da parte mais alta e nos fundos do terreno.

Enfim., ainda havia a edícula, o quarto do meu avô, dos meu tios, a escada com uma esquadria de vidros coloridos e uma linda tapeçaria na parede que me lembrava Árabes, Reis, Jesus, Aladim, fantasias...

Um dia meu avô morreu, a casa estava do jeito que sempre a conheci, com a fachada na massa, portão de ferro enferrujado, mas com todo aquele universo preservado, ou melhor, faltava o meu avô. Apesar de não ter criado laço muito estreito de afetividade, por ser muito jovem e meu avô um pouco fechado, sentia que nunca mais iria ter aquele clima familiar de volta, a casa nunca mais seria a mesma, meu avô era aquela casa, tudo girava em torno dele e havia sido pensado por ele e minha segunda avó. Foi um grande sofrimento para todos nós, um peso enorme e um grande sentimento de vazio.

Os anos se passaram, minha avó (mulher do meu avô em seu segundo casamento, nunca conheci minha “avó de sangue”) conseguiu terminar a obra, segundo ela a fachada foi terminada seguindo o projeto original, eles tinham o projeto guardado! Mas vieram também grades para todas as portas e janelas de vidro (não eram poucas) e construiu-se uma coisa bisonha na laje de uma casa em frente tirando a vista da sala de estar, o clima já não era o mesmo, faltava o meu avô, era uma vez a casa do meu avô.

PARTE 2

Mais algum tempo passou e enquanto fazia o curso técnico de edificações comecei a pensar em quem poderia ter feito a “planta” da casa do meu avô, perguntei a minha mãe se era engenheiro ou arquiteto e ela não sabia, minha avó disse ser o “Sr. Chiquinho”, mas não sabia sua formação profissional, um dia um amigo que fazia plantas em Santos Dumont me mostrou quem era, ou melhor, mostrou a casa do projetista e era quase em frente a casa do meu avô! Sabendo de quem se tratava fui averiguar com minha mãe e minha tia, tratava-se de um sujeito tido como muito culto e sistemático, professor de inglês e literatura. Mas o que tinha de engenheiro ou arquiteto?? E fui descobrir que quando jovem fez desenho arquitetônico por correspondência para ganhar uns trocados fazendo plantas em Santos Dumont, complementava seu estudo com revistas e livros sobre arquitetura, sobretudo sobre história da arquitetura! Não era um simples desenhista, buscava descobrir a arquitetura, suas relações, seus porquês... e era um estudioso de literatura, enfim, um sujeito com certa sensibilidade para as artes. Começava a se fechar o quebra-cabeça.

Um dia conheci o sr. Chiquinho, estava me preparando para o vestibular de arquitetura em Juiz de Fora, era uma aula de inglês para o vestibular, com professor novo. Entra na sala um senhor magro e a princípio tímido e antiquado, tido como chato por todos. Os dias passaram e fui me apresentar, contar sobre meu avô e sobre a casa, ele confirmou ser o autor do projeto e disse que projetava como bico na época, mas que realmente gostava de arquitetura.

Moral da história: Agora, como arquiteto, terminei o quebra-cabeça da casa de meu avô; para que aquela casa existisse não era suficiente haver um desenhista de “planta” e um cliente com dinheiro no bolso, mas principalmente um cliente com sensibilidade e uma certa visão de vida e um “arquiteto” com sensibilidade para absorver isso e traduzir em desenhos e espaços materializados. Sem isso, meus amigos, não há o mínimo de arquitetura. Essa foi a sábia e simples lição da casa do meu avô para minha vida de arquiteto.

Alex Couri

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